VOZES DA CIDADE
Entrevista feita dia 06 de Novembro de 2021
A seguinte entrevista conta as
lembranças e relatos de Ana Maria de Santana Gonçalves moradora do bairro
Jardim Felicidade, Zona Norte em Pirituba, desde 1952. Dona Ana se mudou com
seus pais para morar no terreno do avô quando tinha 10 anos e desde então não
deixou o bairro onde vive. Hoje é aposentada e vive na casa junto com a
empregada/cuidadora Fátima.
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Entrevistador: Boa tarde Dona Ana, obrigada por me ajudar com esse projeto.
A senhora pode me falar a quanto tempo mora aqui no bairro?
Entrevistada: Por nada
querida! Eu moro aqui desde os meus 10 anos de idade, já tem bastante tempo né?
Entrevistador: Então desde os
seus 10 anos a senhora nunca saiu aqui do bairro? Pode me falar um pouco de
como ele era quando a senhora tinha esta idade?
Entrevistada: Olha, eu sai
aqui do bairro quando eu me casei, eu fui morar em Minas com o meu marido,
junto com a família dele, isso eu devia ter uns 25 anos. Mas ai, como aqui em
São Paulo tinha mais chances de emprego, uns três anos de casado nós viemos
para cá e ficamos morando com meus pais, na casa que era dos meus avós. Um
tempo depois a gente construiu uma casinha no terreno deles, eu acho que hoje,
esse terreno deve ser lá perto do parque ali nas ruas debaixo. Nossa, aqui era
tudo terra e mato quando eu era mais nova, a gente podia correr e correr que
não chegava no fim parecia. Sabe esses prédios todos que tem ai? Não tinha nada
disso, nem casa muito grande tinha, na época do meu avô se eu não tiver
enganada, metade desse bairro pertencia a uma fazenda, e os trabalhadores
tinham umas casinhas ao redor para conseguir trabalhar por aqui, sempre foi uma
terra de morar, um bairro residencial né como falam. Não tinham intenção de
construir nada como fabrica e as famílias todas que moravam aqui eram bem
próximas, até hoje, tirando um ou dois aqui eu devo conhecer todo mundo da rua
e tem um tempo.
Entrevistador: Que legal né,
da pra ver mesmo que o bairro é bem calminho, meus pais quiseram vir para cá
por esse motivo. A senhora disse que quando casou construiu uma casa perto do
parque no terreno dos seus pais, porque a senhora decidiu vir para cá?
Entrevistada: O terreno do meu
avô, então, aconteceu que na minha época as coisas eram mais fáceis né, você
chegava e construía e aquela terra era sua, não tinha essa burocracia toda não
que fica atrapalhando as pessoas, e não faz tanto tempo assim, deve ter uns 30
anos que São Paulo tava bem famosa né, e com tudo crescendo, abrindo varias
coisa, e a gente ta num lugar bom, não é longe de muita coisa, perto da Avenida
né e ai a prefeitura começou a pegar as terras que não tinham um documento
informando que o dono era dono, foi uma bagunça muito grande na época menina
porque muita gente não tinha como prova né, então o governo vinha e começava a
cobrar do pessoal tipo um aluguel por onde as pessoas estavam e ninguém era
rico, muita gente foi para casa de outras e foi nessa época que a gente (ela, o
marido e os dois filhos) fomos morar na casa dos meus pais, e não lembro o que
direito, mas meus pais era, bem idosos já e uma rapaz do serviço social ajudou
a gente manter a casa que estava construída, mas o terreno do meu vô a gente
perdeu, e ai eu perdi a casa que tinha construído. Um tempo depois todos nós
aqui do bairro começamos a ir atras das coisas burocráticas e advogados né,
nessa época meu pai faleceu. O pessoal conseguiu fazer um acordo lá, e o
governo acabou vendendo alguns lotes, bem mais barato do que vocês compram hoje
em dia, pra gente que já tinha anos né que morava aqui no bairro, ai cada um
conseguia comprar um pedaço, mesmo que não muito grande para tentar resolver a
briga pela moradia, e ai meu pai tinha falecido, meu marido então achou justo
vender a casa que a gente tinha lá embaixo e a gente comprou um pedaço aqui na
rua e com o dinheiro da venda a gente comprou e começou a construir, ficamos
por um tempo em uma casa alugada e depois quando terminou a obra a gente
voltou. E mesmo com aquela briga toda com o governo né, acho que no geral foi
bom pra maioria, hoje a gente tem nossa casa, com documento e ninguém pode vir
e querer cobrar da gente coisa que já é nossa, mas também é ruim, porque todas essas
histórias né provoca as outras pessoas e elas “acha” que vai acontecer com
elas, que nem aquela invasão ali perto do farol né.
Entrevistador: Nossa, quanta
coisa aconteceu né? Para o bairro ser o que ele é hoje. A senhora quer dizer a
favelinha que tem ali perto dos prédios? Você acha que eles sabem da história
do bairro?
Entrevistada: Acho sim, porque
ai eles devem achar que como a gente estava na terra e depois viramos os
“donos” eles podem fazer o mesmo.
Entrevistador: Mas eles não
estão ali a pouco tempo?
Entrevistada: Acho que tem uns
15 anos que começaram né, eu não sei como chama não mas tinha uns grupos, ele
ficavam acampados ali, é ruim, alguns dias houve até bastante assalto, hoje
eles estão mais quietos né, mas com eles vieram um monte de criminosos morar
aqui, eu acho até que deve ter um traficantes lá dentro. E isso não é bom né, o
bairro sempre foi bem familiar, as crianças podiam ficar até tarde assim na rua
brincando. Mas eu acho que outro motivo para eles virem é também esse monte de
prédio que começaram a construir.
Entrevistador: A senhora
acredita que o pessoal começou a invadir as terras ali porque começaram a
construir os prédios?
Entrevistada: Eu acho que sim,
porque eles queriam ficar perto de gente rica né, e quando eles começam a
construir um monte de prédio assim acaba chamando atenção. Eu lembro do
primeiro prédio, eu fui até ver o preço para comprar para o meu filho, um
horror de caro.
Entrevistador: Eu imagino, é
um bairro bem tranquilo, é ótimo para morar e ainda tem o parque ali embaixo. Bom
dona Ana, estamos acabando, com tudo isso que a senhora pontuou, hoje você acha
que o bairro está muito diferente de como era quando a senhora era mais nova?
Entrevistada: Que ele mudou, ele mudou bastante. Mas se é muito diferente do que era? Eu acho que não viu, porque a gente não tem tanta coisa, tem escola ali, lanchonetes mas não tem nenhuma fabrica grande né, o pessoal ainda vem para cá para morar, da pra conhecer todos os vizinhos, apesar de uma coisa ou outra ele é bem organizado e seguro né? O Centro não é tão seguro assim, eu ainda posso sair pra fazer uma caminhada com a Fatima. Ele ta diferente mas ta do jeitinho dele.
Entrevistador: A nossa ultima
pergunta, a senhora tem vontade de sair do bairro?
Entrevistada:
Tenho não, praticamente nasci aqui e morro aqui, eu e Fatima. Meus filhos
sempre oferecem para eu ir morar com eles mas eu gosto daqui e eu e meu marido
lutamos pelo nosso pedaço, eu vou ficar até não poder mais.
Entrevistador: A senhora está
certa. Muito obrigada dona Ana pela colaboração, eu gostei muito de conhecer
mais sobre o bairro e história dele.
Entrevistada: Obrigada eu, é bom conversar dessas histórias.
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Entrevistadora: REEBECA IFIGÊNIA RAMOS DE ALMEIDA
Entrevistada: ANA MARIA DE SANTANA GONÇALVES
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